{"id":5356,"date":"2012-10-22T15:54:43","date_gmt":"2012-10-22T17:54:43","guid":{"rendered":"http:\/\/ctbe.cnpem.br\/?p=5356"},"modified":"2012-10-22T15:54:43","modified_gmt":"2012-10-22T17:54:43","slug":"entre-acucares-e-genes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lnbr.cnpem.br\/en\/entre-acucares-e-genes\/","title":{"rendered":"Entre a\u00e7\u00facares e genes"},"content":{"rendered":"<p><em>Revista Pesquisa FAPESP, em 11\/10\/2012<\/em><\/p>\n<p><strong>Os mais velhos diriam que a cana-de-a\u00e7\u00facar est\u00e1 sendo virada do avesso tal \u00e9 o volume de estudos gen\u00e9ticos, fisiol\u00f3gicos e agron\u00f4micos a que est\u00e1 sendo submetida nos \u00faltimos anos.<\/strong> O que se quer \u00e9 conhecer mais profundamente a planta e suas peculiaridades com o intuito de aumentar a produtividade dessa gram\u00ednea trazida pelos portugueses ao Brasil ainda no s\u00e9culo XVI. <strong>A meta final \u00e9 produzir mais etanol em um mesmo hectare de terra.<\/strong> Para isso contam tamb\u00e9m as pesquisas para tornar a cana mais adaptada \u00e0 chamada segunda gera\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o de \u00e1lcool, quando enzimas v\u00e3o aproveitar os a\u00e7\u00facares que s\u00e3o recuperados do baga\u00e7o de cana para a forma\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de sopa e ent\u00e3o produzir mais biocombust\u00edvel. Assim, pesquisadores de v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es brasileiras est\u00e3o com um olho na pesquisa b\u00e1sica e outro l\u00e1 na frente, no futuro do processo industrial de produ\u00e7\u00e3o de etanol. O avan\u00e7o no conhecimento cient\u00edfico come\u00e7ou em 1999 com o lan\u00e7amento do Genoma Cana, financiado pela FAPESP, e o \u00faltimo resultado das pesquisas confirma que o colmo e as folhas da cana possuem mais a\u00e7\u00facares, subst\u00e2ncias primordiais na elabora\u00e7\u00e3o do etanol, na por\u00e7\u00e3o hemicelulose do que na celulose, um conhecimento que pode mudar os rumos da produ\u00e7\u00e3o de etanol de segunda gera\u00e7\u00e3o no futuro.<\/p>\n<p>\u201cFizemos estudos na parede celular tanto do colmo quanto das folhas da cana que mostraram a presen\u00e7a de cerca de 30% de a\u00e7\u00facares na celulose, 50% na hemicelulose, al\u00e9m de 10% de pectinas. A tecnologia que se est\u00e1 desenhando hoje para a futura segunda gera\u00e7\u00e3o de etanol se baseia apenas na celulose, enquanto os pol\u00edmeros de a\u00e7\u00facares das hemiceluloses, que cont\u00eam a\u00e7\u00facares complexos como os arabinoxilanos, betaglucanos e xiloglucanos, s\u00e3o deixados de lado, al\u00e9m das pectinas, que juntos representam 70% dos a\u00e7\u00facares na parede celular da cana\u201d, diz Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo e coordenador do Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia (INCT) do Bioetanol, que re\u00fane 31 laborat\u00f3rios em cinco estados brasileiros. Nas paredes celulares da cana, as hemiceluloses e pectinas, localizadas entre as microfibrilas que s\u00e3o aglomerados de mol\u00e9culas de celulose, possuem muitos a\u00e7\u00facares compostos por cinco carbonos e por isso n\u00e3o s\u00e3o palat\u00e1veis para as leveduras (Saccharomyces cerevisiae) usadas na fermenta\u00e7\u00e3o do caldo de cana. Elas est\u00e3o acostumadas com a sacarose, formada por glicose e frutose, encontrada no suco de cana, ou ainda na glicose da celulose e de algumas das hemiceluloses, que t\u00eam seis carbonos.<\/p>\n<p>O aproveitamento futuro por meio da hidr\u00f3lise das pentoses do baga\u00e7o, que s\u00e3o os a\u00e7\u00facares de cinco carbonos, pode levar a um aumento de etanol estimado em, pelo menos, mais 5 bilh\u00f5es de litros na produ\u00e7\u00e3o brasileira (ver Pesquisa FAPESP n\u00ba 192), hoje com cerca de 25 bilh\u00f5es de litros. A utiliza\u00e7\u00e3o das pentoses tamb\u00e9m poder\u00e1 se dar no uso em aplica\u00e7\u00f5es biotecnol\u00f3gicas, em alimentos e medicamentos, agregando valor comercial ao baga\u00e7o. Nos processos de segunda gera\u00e7\u00e3o, as enzimas formam um l\u00edquido que tamb\u00e9m serve de alimento para as mesmas leveduras. <strong>\u201cExistem tentativas para produzir linhagens de Saccharomyces, inclusive no Laborat\u00f3rio Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia do Biotenol (CTBE), e em outras institui\u00e7\u00f5es e empresas no Brasil e no exterior, que sejam capazes de utilizar os a\u00e7\u00facares de cinco carbonos.<\/strong> Na Inglaterra e na Su\u00e9cia j\u00e1 conseguiram demonstrar que isso \u00e9 poss\u00edvel, mas \u00e9 tudo feito em laborat\u00f3rio com esteriliza\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, para as usinas brasileiras, isso ainda n\u00e3o \u00e9 suficiente. \u00c9 preciso que as leveduras sejam robustas para sobreviver na presen\u00e7a de outros microrganismos, como bact\u00e9rias, existentes num ambiente sem esteriliza\u00e7\u00e3o\u201d, diz Buckeridge, que \u00e9 tamb\u00e9m diretor cient\u00edfico do CTBE, localizado em Campinas, S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Mesmo nos experimentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 etapa mais avan\u00e7ada que \u00e9 a hidr\u00f3lise da celulose ainda pairam muitas d\u00favidas. \u201cJ\u00e1 existe um bom conhecimento do processo do pr\u00e9-tratamento, mas ainda precisamos investigar as v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es para fazer a hidr\u00f3lise na forma que a ind\u00fastria possa absorver rapidamente e de modo econ\u00f4mico e sustent\u00e1vel\u201d, diz o professor Rubens Maciel Filho, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos coordenadores do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (Bioen) do qual o INCT Bioetanol tamb\u00e9m participa.<strong> \u201cS\u00e3o necess\u00e1rias avalia\u00e7\u00f5es tecnoecon\u00f4micas e de sustentabilidade, nesse caso, em an\u00e1lises sobre o consumo de \u00e1gua e no uso de produtos qu\u00edmicos no processo de hidr\u00f3lise\u201d, diz Maciel Filho.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cHoje, nos experimentos para a segunda gera\u00e7\u00e3o, o baga\u00e7o, depois que \u00e9 descartado ap\u00f3s a primeira gera\u00e7\u00e3o quando se extrai o caldo da cana para fazer etanol, passa por um processo de ruptura das paredes celulares para a obten\u00e7\u00e3o da celulose que est\u00e1 envolvida por hemicelulose e lignina, um pol\u00edmero que n\u00e3o possui a\u00e7\u00facar\u201d, diz Buckeridge. A ruptura acontece atualmente por meio de vapor em alta press\u00e3o em que a parede celular do baga\u00e7o \u00e9 afrouxada e a separa\u00e7\u00e3o dos componentes feita por meio de solventes, \u00e1cidos e enzimas. \u201c\u00c9 o uso da for\u00e7a. \u00c9 feito um esfor\u00e7o para jogar fora tudo o que voc\u00ea tem em volta da celulose\u201d, diz o professor da USP. \u201cA nossa ideia \u00e9 come\u00e7ar o processo de hidr\u00f3lise no campo. Produzir cana mais preparada para a segunda gera\u00e7\u00e3o, que torne mais f\u00e1cil a hidr\u00f3lise e n\u00e3o seja mais necess\u00e1rio lavar o baga\u00e7o, o que retira muitos a\u00e7\u00facares do material.\u201d<\/p>\n<p>Em artigo que ser\u00e1 publicado na revista BioEnergy Research, ele e mais dois pesquisadores de seu grupo na USP, e outros dois pesquisadores do Centro de Carboidratos Complexos da Universidade da Ge\u00f3rgia, nos Estados Unidos, al\u00e9m de mostrarem a pesquisa que identifica as fra\u00e7\u00f5es de cada pol\u00edmero de a\u00e7\u00facar na cana, fazem observa\u00e7\u00f5es sobre a complexidade da parede celular e a dificuldade de encontrar as chaves qu\u00edmicas ou um c\u00f3digo que pudesse aproveitar melhor a rede de polissacar\u00eddeos. Eles acreditam tamb\u00e9m que o resultado da composi\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facares na cana pode levar a uma modifica\u00e7\u00e3o no processo de segunda gera\u00e7\u00e3o. Como solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel no futuro, Buckeridge, com base nos dados atuais, imagina que a melhor solu\u00e7\u00e3o seria a cana ser levada inteira para o processo de hidr\u00f3lise depois que se extra\u00edsse o caldo para a primeira gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA biologia das paredes celulares \u00e9 o cerne desses avan\u00e7os e \u00e9 essencial para fazer progressos tecnol\u00f3gicos na \u00e1rea de biocombust\u00edveis sustent\u00e1veis e biomateriais\u201d, diz o professor Leonardo Gomez, do Departamento de Biologia da Universidade de York, na Inglaterra. Gomez, que \u00e9 argentino, esteve em 2010 no Brasil conhecendo o CTBE. \u201c<strong>Na opini\u00e3o de muitos especialistas, o desenvolvimento de biocombust\u00edveis de segunda gera\u00e7\u00e3o \u00e9 favorecido pela presen\u00e7a de uma ind\u00fastria bem estabelecida de primeira gera\u00e7\u00e3o. Dessa forma, o Brasil apresenta o melhor ambiente para que isso possa acontecer. Mas isso \u00e9 apenas potencial. Algu\u00e9m tem que assumir o risco e investir na \u00e1rea no aspecto industrial\u201d, diz Gomez.<\/strong><\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, para o avan\u00e7o no processo de obten\u00e7\u00e3o de etanol por meio da segunda gera\u00e7\u00e3o, Buckeridge destaca um pr\u00e9-tratamento fisiol\u00f3gico que deixa a planta mais male\u00e1vel e com mais potencial para ser processada na hidr\u00f3lise. \u201c\u00c9 uma subst\u00e2ncia que, aplicada nas planta\u00e7\u00f5es ainda quando a planta est\u00e1 pequena, inibe uma enzima na cana que vai fazer fenilpropanoides, que s\u00e3o os precursores da lignina, a subst\u00e2ncia que amarra os a\u00e7\u00facares na parede celular e d\u00e1 resist\u00eancia mec\u00e2nica \u00e0 planta. Ainda n\u00e3o sabemos ao certo o que acontece, mas foi poss\u00edvel com esse composto aumentar em 30% o processamento dos xilanos, que compreendem 50% das hemiceluloses\u201d, diz Buckeridge. O uso dessa subst\u00e2ncia, composta por \u00e1cido piperol\u00ednico na cana, tem uma patente depositada por Buckeridge no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) e pelo seu ex-p\u00f3s-doutorando Wanderley dos Santos, que agora, como professor da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), testa em campo o produto. \u201cAinda temos que melhorar e tentar diminuir o custo\u201d, diz Buckeridge.<\/p>\n<p>Outra solu\u00e7\u00e3o para a segunda gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo elaborada no \u00e2mbito do Bioen, em que 13 grupos de pesquisadores contribuem para a forma\u00e7\u00e3o da supercana, uma ou mais variedades agron\u00f4micas e gen\u00e9ticas com caracter\u00edsticas de alta qualidade para a primeira e a segunda gera\u00e7\u00e3o. Uma delas \u00e9 ter maior capacidade de fazer fotoss\u00edntese. Os pesquisadores j\u00e1 identificaram, pelo menos, quatro genes respons\u00e1veis por capturar a luz do sol. Esses genes poder\u00e3o ser relacionados ao aumento da taxa de crescimento do n\u00famero de c\u00e9lulas e o consequente aumento da produ\u00e7\u00e3o de sacarose. A forma\u00e7\u00e3o de plantas transg\u00eanicas est\u00e1 entre as ferramentas biotecnol\u00f3gicas na produ\u00e7\u00e3o dessa supercana. A transgenia no caso n\u00e3o seria apenas na inser\u00e7\u00e3o de genes externos \u00e0 planta, mas sim na ativa\u00e7\u00e3o ou no silenciar de genes da pr\u00f3pria cana. \u201cPoder\u00edamos tamb\u00e9m elaborar plantas com paredes celulares mais adequadas para a segunda gera\u00e7\u00e3o\u201d, diz Buckeridge. \u201cPode parecer futurista pensar assim, mas o Bioen tem genes relativos \u00e0 parede celular transformada, em que pensamos em fazer a \u2018cana-papaia\u2019, por exemplo.\u201d Essa cana do futuro teria algumas caracter\u00edsticas semelhantes ao mam\u00e3o-papaia, que \u00e9 mais doce e macio depois de amadurecido e colhido.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 temos 380 genes ligados \u00e0 sacarose e mais de mil relativos \u00e0 resist\u00eancia \u00e0 seca\u201d, diz a professora Glaucia Mendes Souza, do Instituto de Qu\u00edmica (IQ) da USP, que junto com a professora Marie Anne van Sluys, do Instituto de Bioci\u00eancias da USP, lidera a pesquisa gen\u00f4mica da cana no \u00e2mbito do Bioen e conta com a participa\u00e7\u00e3o do professor Marcelo Menossi, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Desses, 250 genes j\u00e1 est\u00e3o sendo testados em mudas de cana dispostas em tubos de ensaio, cubas e vasos no IQ da USP ou em estufas na Escola de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, em Piracicaba, em experimentos sob a coordena\u00e7\u00e3o da professora Helaine Carrer, que analisa a express\u00e3o dos genes. Tamb\u00e9m \u00e9 testada a express\u00e3o de genes de cana em tabaco, uma planta mais f\u00e1cil de manipular em laborat\u00f3rio e que serve de modelo para esse tipo de experimento. Dois genes de cana ligados \u00e0 resist\u00eancia \u00e0 seca j\u00e1 foram expressos no tabaco e tiveram o uso transformado em patente depositada no INPI.<\/p>\n<p>Para transformar a planta com genes de interesse s\u00e3o necess\u00e1rios promotores, ferramentas biotecnol\u00f3gicas na forma de sequ\u00eancias de DNA em que o gene vai se expressar. S\u00e3o nessas mol\u00e9culas que os pesquisadores v\u00e3o modular a superexpress\u00e3o ou o silenciar de genes. \u2028\u201cDepositamos uma patente neste ano de 10 promotores de cana que v\u00e3o permitir a express\u00e3o dos genes de forma diferente\u201d, diz Glaucia. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s paredes celulares da cana, Glaucia diz que j\u00e1 desenvolveu plantas com genes silenciados ligados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da lignina. \u201cEla atrapalha a execu\u00e7\u00e3o da segunda gera\u00e7\u00e3o porque dificulta a extra\u00e7\u00e3o dos polissacar\u00eddeos, mas quando desligamos a sua produ\u00e7\u00e3o aconteceu, em alguns experimentos, o acamamento em que a planta cai para os lados. Precisamos encontrar variedades em que possamos experimentar um caminho do meio, diminuindo a presen\u00e7a de lignina, mas mantendo a planta em p\u00e9\u201d, explica Glaucia.<\/p>\n<p><strong>Na outra ponta da pesquisa acad\u00eamica relativa \u00e0 hidr\u00f3lise est\u00e3o os estudos para se chegar a enzimas cada vez mais eficientes para quebrar as paredes celulares da cana, extrair os a\u00e7\u00facares e preparar o material para a produ\u00e7\u00e3o de etanol.<\/strong> Mas quais enzimas usar para processar os diferentes polissacar\u00eddeos presentes na parede celular da planta? Algumas enzimas usadas pela ind\u00fastria de alimentos, por exemplo, est\u00e3o sendo testadas com cana, mas elas n\u00e3o resolvem tudo. \u201c<strong>Essas enzimas industriais s\u00e3o produzidas principalmente por fungos\u201d, diz o professor Richard Ward, do Departamento de Qu\u00edmica, da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras de Ribeir\u00e3o Preto, da USP, e do CTBE, que j\u00e1 conseguiu desenhar duas enzimas multifuncionais com a\u00e7\u00e3o sobre as hemiceluloses.<\/strong> Chamadas de enzimas quim\u00e9ricas, elas s\u00e3o produzidas por bact\u00e9rias.<br \/>\n\u201cSabemos que a celulose \u00e9 o componente mais escondido que os outros polissacar\u00eddeos presentes na parede celular da cana e nosso desafio \u00e9 criar enzimas que destruam e degradem, de forma programada, os outros componentes, que tamb\u00e9m s\u00e3o fontes importantes de a\u00e7\u00facar, at\u00e9 chegar \u00e0 celulose\u201d, explica Ward. \u201c\u00c9 importante desenvolver as enzimas mais adequadas para cada polissacar\u00eddeo. Mas ainda \u00e9 dif\u00edcil encontrar enzimas boas e que possam ter baixo custo. Hoje elas est\u00e3o sendo comercializadas por dezenas de d\u00f3lares o quilo. Pode parecer barato, mas precisamos pensar no processamento na usina de centenas ou at\u00e9 milhares de toneladas de material lignocelul\u00f3sico por dia.\u201d Ward diz que o objetivo \u00e9 construir enzimas quim\u00e9ricas, em que cada uma ataque mais de um pol\u00edmero do baga\u00e7o da cana. \u201cIsso \u00e9 importante principalmente para as hemiceluloses, que t\u00eam um conjunto heterog\u00eaneo de polissacar\u00eddeos.\u201d<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s enzimas tamb\u00e9m surgem pesquisas que poder\u00edamos chamar de inusitadas, mas baseadas na mais pura observa\u00e7\u00e3o da natureza. Na busca por enzimas que destroem celulose e material lignocelul\u00f3sico, como \u00e9 o baga\u00e7o, o professor Ednildo Machado, do Instituto de Biof\u00edsica, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), estuda a composi\u00e7\u00e3o enzim\u00e1tica do aparelho digestivo de duas baratas, aPeriplaneta americana, comum nas grandes cidades, e aNauphoeta cinerea, criada para servir de alimento para animais em cativeiro como lagartos e outros r\u00e9pteis. \u201cEm experimentos em laborat\u00f3rio cheguei a fornecer apenas baga\u00e7o de cana para as baratas e elas se alimentaram dele, ou seja, conseguiram digerir as paredes celulares desse material para sobreviver de forma muito positiva\u201d, diz Machado. Com isso, ele come\u00e7ou a pensar nas poss\u00edveis enzimas do aparelho digestivo desses insetos que possam ser \u00fateis na segunda gera\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o de etanol.<\/p>\n<p>Machado foi apresentado a Buckeridge durante o Congresso Brasileiro de Bioqu\u00edmica em 2010 e a partir da\u00ed estreitaram uma colabora\u00e7\u00e3o. Ele esteve no CTBE, e v\u00e1rios experimentos foram realizados. <strong>\u201cConseguimos identificar algumas enzimas que s\u00e3o produzidas por bact\u00e9rias no interior do aparelho digestivo das baratas. N\u00e3o sabemos ainda se essas bact\u00e9rias j\u00e1 estavam l\u00e1 ou se o inseto as adquiriu do material, no caso o baga\u00e7o.\u201d<\/strong> A barata pode tamb\u00e9m produzir as enzimas por meio de fungos e protozo\u00e1rios e tem grande facilidade para se alimentar de um amplo n\u00famero de res\u00edduos, al\u00e9m de se adaptar facilmente a essa diversidade. \u201cEssa caracter\u00edstica nos permitiu identificar uma s\u00e9rie de enzimas nos insetos, excelentes para diversos processos tecnol\u00f3gicos\u201d, diz Machado. O pr\u00f3ximo passo \u00e9 identificar ao certo quais os microrganismos que produzem as enzimas. Para isso \u00e9 preciso sequenciar todos os DNAs presentes no intestino da barata, num processo chamado de metagen\u00f4mica, que possibilita identificar quais esp\u00e9cies e os genes envolvidos na produ\u00e7\u00e3o de enzimas especializadas na quebra de celulose e hemicelulose do baga\u00e7o de cana. Com a identifica\u00e7\u00e3o dos genes \u00e9 poss\u00edvel clon\u00e1-los em bact\u00e9rias como a Escherichia coli e assim viabilizar a produ\u00e7\u00e3o dessas enzimas em escala industrial. O mesmo processo come\u00e7a a ser usado pelo professor Ward para produzir em laborat\u00f3rio as enzimas para atacar a parede celular da cana.<\/p>\n<p>Assim cresce o n\u00famero de ferramentas que poder\u00e3o ajudar, dentro de alguns anos, a cana a produzir mais etanol. \u201c<strong>Nos \u00faltimos 10 anos, aconteceu um aumento exponencial na pesquisa e investimento tecnol\u00f3gico para a utiliza\u00e7\u00e3o da biomassa como um substituto renov\u00e1vel e sustent\u00e1vel do petr\u00f3leo\u201d, diz Gomez, da Universidade de York<\/strong>. \u201cA pesquisa atual na \u00e1rea de composi\u00e7\u00e3o de biomassa j\u00e1 oferece novo potencial para a energia biorrenov\u00e1vel.\u201d Para ele, a produ\u00e7\u00e3o de etanol e de produtos qu\u00edmicos de alto desempenho a partir da biomassa somente \u00e9 poss\u00edvel com um conhecimento detalhado e multidisciplinar de biologia e bioqu\u00edmica de biomassa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Artigos cient\u00edficos<\/em><br \/>\nE SOUZA, A.P. et al. Composition and structure of sugarcane cell walls: implications for cell wall hydrolysis and second generation bioethanol. BioEnergy Research. No prelo. set. 2012.<br \/>\nBEGCY, K. et al. A novel stress-induced sugarcane gene conferstolerance to drought, salt and oxidative stress in transgenic tobacco plants. Plos One. v. 7, n. 9, e44697. set. 2012.<br \/>\nFURTADO, G.P. et al. A designed bifunctional laccase\/\u03b2-1,31,4 \u2013 glucanase enzyme shows synergistic sugar release from milled sugarcane bagasse. Protein Engineering, Design &amp; Selection. No prelo. set. 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revista Pesquisa FAPESP, em 11\/10\/2012 Os mais velhos diriam que a cana-de-a\u00e7\u00facar est\u00e1 sendo virada do avesso tal \u00e9 o volume de estudos gen\u00e9ticos, fisiol\u00f3gicos e agron\u00f4micos a que est\u00e1 sendo submetida nos \u00faltimos anos. O que se quer \u00e9 conhecer mais profundamente a planta e suas peculiaridades com o intuito de aumentar a produtividade&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[58],"tags":[],"class_list":["post-5356","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","category-58","description-off"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lnbr.cnpem.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5356","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lnbr.cnpem.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lnbr.cnpem.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lnbr.cnpem.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lnbr.cnpem.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5356"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lnbr.cnpem.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5356\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lnbr.cnpem.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lnbr.cnpem.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lnbr.cnpem.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}