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Estudo do SUCRE indica melhores condições de remoção de palha para a qualidade do solo

Resultados de experimento realizado na região de Piracicaba-SP indicam, por meio de múltiplas abordagens de avaliação, mudanças nas condições físicas e biológicas do solo sob diferentes taxas de remoção de palha

A estratégia de remover parcialmente a palha do campo para geração de bioeletricidade é plausível e mantêm a qualidade do solo na região de Piracicaba, em São Paulo. É o que indicam os resultados do trabalho desenvolvido por pesquisadores do Projeto SUCRE, uma iniciativa implementada pelo Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), que pertence ao Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

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Estrutura do solo por múltiplas abordagens

O engenheiro agrônomo, e um dos responsáveis pela pesquisa, Guilherme Adalberto Ferreira Castioni explicou que foram utilizadas diferentes abordagens voltadas a avaliação da estrutura do solo no estudo, integrando não apenas as tradicionais análises realizadas em laboratório (porosidade, resistência a penetração e densidade do solo), como também técnicas de avaliação em  campo: a avaliação visual da estrutura do solo (VESS, da sigla em inglês para Visual Evaluation of Soil Structure), a condutividade elétrica e a abundância de minhocas. Esse conjunto de métodos, aplicados em solo mantido por quatro anos com diferentes taxas de remoção de palha, respaldam os resultados obtidos, conforme relata o engenheiro. “Essa abordagem múltipla foi bem vista pelos editores da revista onde o artigo foi publicado”, contou.

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Dentre os métodos utilizados destaca-se, o VESS. “O VESS consiste na análise visual das características físicas do solo. “Nessa metodologia podemos verificar o estado de degradação ou compactação do solo através da presença de raízes, de bioporos, do tamanho e forma dos agregados, e da força de tração para quebra-los”, descreveu.  Menores pontuações no VESS representam solos mais soltos e friáveis, que indicam menor compactação e/ou maior teor de matéria orgânica, o que aumenta, por sua vez, a capacidade de recuperação desse solo após sofrer estresses como a pressão de rodagem das máquinas e equipamentos utilizados no campo, conforme explicou o autor do artigo. “Em nosso estudo, as menores pontuações do VESS foram associadas tanto as áreas sem nenhuma ou com baixa remoção de palha, indicando que a remoção parcial é uma estratégia sustentável para as condições de solo e clima em que foi avaliado”, comentou.

Praticado inicialmente em solos europeus, o VESS é uma avaliação desenvolvida para o próprio produtor que, com o auxílio de uma cartilha visual das possíveis características do solo, é possível a identificação do local onde se inicia a compactação do solo. “Foi possível verificar a alta compactação do solo nos tratamentos com remoção total ou alta remoção de palha, com menor condutividade elétrica, associada a menor umidade no solo, e a ausência de minhocas, as engenheiras do solo”, comentou Castioni. No Brasil, entretanto, a técnica do VESS é emergente, como explicou Castioni. “Essa é uma avaliação da estrutura, ou seja, de solos com estrutura mais coesa, com maiores teores de argila”, completou. Em solos arenosos essa avaliação ainda não é possível e deve ser adaptada em breve, devido a estrutura granular que possuem.

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A avaliação da estrutura do solo é uma das vertentes que permite verificar a qualidade e capacidade do solo em manter boas produções agrícolas.  “O solo como estrutura favorável ao crescimento da planta tem boa porosidade, por onde ocorre a difusão de gases e processos que regulam a disponibilidade de água no solo”, pontuou Castioni. Sob alta resistência a penetração no solo, as raízes têm dificuldade para se desenvolver, de acordo com o engenheiro, o que significa que terão um gasto energético para contornar as barreiras físicas, gasto esse que poderia ser revertido para o crescimento da planta, proporcionando perda de rendimento produtivo na cultura. Esses resultados, integrados a outros de fertilidade, biologia e conservação do solo, emissão de gases do efeito estufa e produtividade da cana-de-açúcar, permitirão nortear estratégias sustentáveis para o recolhimento de palha para bioeletricidade, respeitando a sustentabilidade do solo, da cultura e do ambiente. É preciso lembrar que a quantidade de palha necessária para manter os benefícios do solo, no entanto, depende da produtividade e das condições edafoclimáticas de cada região e mais estudos são necessários. Em função disso, a equipe do Projeto SUCRE vem realizando avaliações em diferentes áreas produtivas no Brasil, com distintas condições edáficas.

A avaliação visual da estrutura do solo (VESS) permite identificar o estado de degradação ou compactação do solo | Foto: Guilherme Castioni

 

O VESS consiste em retirar uma porção indeformada do perfil do solo até o limite da ferramenta utilizada para o corte, geralmente correspondente a uma pá reta. A amostra, ainda indeformada, é transferida para uma bandeja plástica e trabalhada com as mãos para que se rompa nos seus pontos de fissura natural, ou seja, nos canais construídos com a exploração de raízes e nas diferenciações do perfil do solo consolidadas com a compactação. | Foto: Guilherme Castioni

 

Sobre o Projeto SUCRE

O SUCRE é um dos principais projetos do CTBE e visa, junto às usinas do setor sucroenergético brasileiro, a implementação da produção de energia elétrica utilizando como matéria-prima a palha de cana-de-açúcar obtida durante a colheita. Para tanto, a equipe trabalha na identificação e solução dos problemas que impedem as usinas parceiras de gerarem eletricidade de forma plena e sistemática. A iniciativa é financiada pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, da sigla em inglês para Global Environment Faciliy), gerida em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e implementada pelo CTBE, que integra o CNPEM.